Nesse mês de Setembro de 2016 fomos acometidos de uma notícia péssima, em âmbito nacional, sobre a trágica morte do ator Domingos Montagner no Rio São Francisco, em Sergipe, por afogamento em frente a sua parceira de cena na novela “Velho Chico”, a atriz Camila Pitanga. Em poucas horas o comentário do sumiço do ator invadiu as praias da internet e, tristemente, oficializada a morte algumas horas depois.

Eu fiquei sabendo já no final da tarde deste dia, pela internet mesmo por uma amiga que escreveu num desses grupos que são criados para “guetear” mais as pessoas – inclusive eu – com a seguinte indagação: “Vocês viram o sumiço do ator?”. Fiquei intrigado, pois sou das artes, e fui verificar. Levei um tremendo baque com a história toda que descobri naquele momento, que me remeteu à alguns anos atrás quando pude ter a sorte de ver um espetáculo da Cia La Mínima, com Domingos Montagner e Fernando Sampaio (À la carte, direção do italiano Leris Colombaiani).

Os dois atores eram “incomuns” em cena. Era de uma comunicação, que chegava ao público com uma delicada dose de emoção, fazendo os poros da pele se abrirem. Eu estava começando na lida do fazer teatral e aquele momento foi um forte impulso à minha vida no teatro. Conheci eles ali, naquele contexto, e o carinho de Domingos e Fernando com a plateia foi ímpar! É ímpar! Será ímpar! Percebem que o baque, quando da notícia, tem um sentido? Pois fiquei a semana inteira triste com a morte de Montagner. Tocado mesmo. Tirado daqui e levado para o lado de lá para olhar sem ser visto!

cia-la-minimaA história da Cia La mínima começou lá no Circo Escola Picadeiro, em São Paulo, sob a batuta do mestre Roger Avanzi, o palhaço Picolino, que já trazia a arte do palhaço como mote. Em 1997, juntos – Domingos e Fernando – a Cia La Minima foi oficializada e daí começaram a trabalhar o palhaço na figura das acrobacias circenses recheadas de elementos do humor e o corpo físico. (Domingos teve aulas com Rute Rachou e Denilto Gomes, na dança coreográfica). À partir daí, o palhaço e a palhaçaria seriam a maior qualidade da Cia, que teve uma trajetória magnífica, com diretores importantíssimos que tinham o palhaço e o humor como ferramenta de estudo e convidados especiais em alguns espetáculos. Uma receita simples de dois caras simples com propósito grande – a arte do palhaço como agente comunicador.

Domingos Montagner acabou chegando à TV, local onde ficou nacionalmente conhecido, em 2008, pelo seriado Mothern, da GNT (canal fechado) e na novela Cordel Encantado (TV Globo, canal aberto) e de lá pra cá, foi alçado ao posto de galã maduro em inúmeras produções. Um belo homem no imaginário das pessoas, porém, ele foi muito mais que isso: amava a sua arte – a do ator – acima de tudo. E se entregava a ela. Fatalmente, num desses trabalhos, perdemos Domingos. Mas que fique na nossa memória, o seu trabalho, sua integridade e a sua dignidade de tratar a arte como um belo bebê de colo, que sempre cresceu em suas mãos.

E esse trágico fato trouxe ao público a figura do palhaço. Palhaço como arte! A palhaçaria em nós. O clown! E ser clown é coisa muito séria!

clownHá diferentes tipos de clowns: vou aqui citar o branco e o augusto. O branco é aquele que se intitula o mandão, o poder, o chefe. Oprime por sua ação o augusto, que é aquele clown tido como mestre da ingenuidade, bobalhão, sem noção, o manipulado pelo clown branco. Ocorre que o branco, por sua vez, demonstra o seu lado fraco e dando canja ao augusto para demonstrar a sua genialidade perante a vida. Esse conceito do lado fraco (ridículo) e do forte (genialidade), uma alusão ao cômico e ao trágico acentua a percepção das emoções, perfazendo uma história. Partindo desse prisma, temos parâmetros para entender as relações sociais. Façam as comparações aos líderes e opositores, aos parceiros de gags, aos seus amigos e compatriotas, ao Homem e tirem suas conclusões. No cinema o clown apareceu sempre: Charles Chaplin, Lucille Ball, Buster Keaton, Jerry Lewis, Oscarito, Grande Otelo, Jim Carrey, Jacques Tati, Groucho Marx, entre outros. Na TV, não podemos esquecer de Roberto Bolaños.

Clown é uma linguagem artística que transgride os valores da Humanidade, seja pelo riso, seja pela tristeza, seja pela inadequação frente a qualquer coisa. Mas é arte! E das boas!

Domingos, sem saber, trouxe à tona o palhaço que há em nós.

Lembro-me sempre de uma entrevista que ele deu à um jornal de São Paulo: “Que os diretores se concentrem na direção de seus espetáculos e deixe que o público aplauda de pé, sentado ou mesmo vaie. Mas vá!. Não existe teatro sem público e com ele, o artista deve se comunicar”. Já é um grande olhar sobre o poder da mídia que pensa que manda em quem lê o seu jornal, revista ou canal.

Ps.: Tô aqui escrevendo esse artigo e a televisão ligada em Velho Chico, onde transcorre a uma cena de Domingos Montagner, com Antonio Fagundes e Camila Pitanga, sobre olhar de outros atores. Ele abre os braços em direção ao Rio São Francisco em sinal de agradecimento. Tão linda e louca são os acontecimentos da vida!….pensei….