Talvez uma das coisas que haja mais concordância é quando falamos que somos duais. Ser dual, para qualquer um, faz parte de nossa essência.  Quem sabe, por sermos meio deuses e meio animais.  Atribuirmos a eternidade à alma e temporalidade ao corpo.  Há dias que somos alegres, outros menos e sempre nos deparamos com sentimentos contraditórios diante de uma emoção.

A importância dessa certeza e de sua consciência são muito úteis para nos descobrirmos e, no fundo, vivermos melhor e de maneira mais plena.

Nós mulheres, entretanto, parece que vivemos ainda mais essa permanente dualidade e a divisão tênue de estados de espírito afetadas por tudo o que nos roda e de todo esse universo que há dentro de nós.

Em meu consultório, no meu programa e nas palestras, talvez de maneira ainda mais intensa, tenho de verdadeiramente agir como uma balança permanente nesses quadros que oscilam e que trazem tanta perplexidade para a mulher e para seus sentimentos.  Preponderar sua decisão para um dos lados que oscila em sua dualidade, traz sempre uma dor palpável que experimenta e sofre.

Assim também em torno do sexo: se de um lado deseja aquele homem cavalheiresco, polido, educado e que extremamente agrada e jamais passa o ponto do que seja absolutamente cortês, educado e agradável, por outro lado deseja em suas profundezas aquele sujeito rude, inquestionavelmente mulherengo, de clava em punho, músculos em riste e que não faz nada além de sujeita-la a seus caprichos sexuais.  Oscilando entre esses inconciliáveis esterótipos, cria uma fantasia intangível e se atrela seu prazer e sua vida a existência desse ser mitológico, sofre por sua ausência.

Recentemente, na série aclamada de “50 tons”, é exatamente esse unicórnio do imaginário que povoou a mente de muitas mulheres que suspiraram pelo protagonista da série que encarna esses dois lados superlativamente.

Mas no mundo real, tão não acontece.  Ou temos a mulher vítima do que não ousa e não proporciona o prazer necessário ou temos a mulher vítima do que ousa demais e exatamente por isso machuca, sentimentos e, por vezes, o próprio corpo.

Quando com um, deseja-se o outro e sempre vice-versa.  Já no mundo inconfessável e profundo das fantasias, citados seres navegam bem na dualidade de quem os sonha, mas no mundo real tal não acontece.  E às vezes esse protagonista é nosso companheiro, já solidificado em um relacionamento estável e pai de nossos filhos e por isso, não é de descarte tão facilitado assim, até porque, grande parte do tempo ele é desejado e acomoda-se em nossos desejos diários.

Mas então, essa dualidade nos sensibiliza e incomoda.  Talvez a ida burlesca ao clube de mulheres não supra e apenas aguce um sentido íntimo, profundo que mostra por vezes que somos as mulheres das cavernas subjugadas na força e levadas pelos cabelos e com todo o nosso feminismo e empoderamento alertas e clamando a denúncia do absurdo, sucumbimos de desejo por esse ancestral barbudo.

Ao nosso lado, nosso intelectual companheiro, sutil e delicado nem de longe e em seus mais distantes devaneios imagina que a sua companheira de anos, mãe atenta, mulher doce e terna, tenha dentro de si essa fera faminta e felina desejosa de um envolvimento sexual mais parecido com uma luta do que com o que sempre pregou como a ternura de um ato de amor.

Essa dualidade clama um preço, de uma frustração contida, profunda e que por vezes, emerge para incomodar e exigir, sendo suplantada e afogada pela razão e pela rotina e voltando ao fundo do ser, alimenta mais um sentimento de não correspondência e frustração que redunda naquilo que é chamado de melancolia mas que deveria mesmo ser catalogada de tristeza.

Se é uma questão impossível de ser solucionada, isto depende de cada um, mas essas fantasias que se clamam de vez em quando e que são oriundas de nosso estado natural de também animal e de nossos desejos mais íntimos, se forem abruptamente realizados, normalmente vêm carregados de uma dose de culpa e arrependimento.

De novo a dualidade cobrando seu preço. A dosagem dessas quantidades de realidade e fantasias e sua realização é um interessante projeto de parte de vida baseado inicialmente no autoconhecimento e depois num processo de implementação que passa pelo desapego de alguns valores que não tem outro sentido a não ser nos aborrecer e uma dose de franqueza e diálogo.

Quanto ao diálogo, sentar em uma cadeira e contar fantasias desse naipe, normalmente assustam a parceria e parece mais lógico que, em momentos mais íntimos, tal vá crescendo e suas sugestões e realizações acontecem entre afagos, carícias e toques, que mostram a descoberta de tais sentidos.  Talvez, mais do que se imagina, sob o cavalheiresco manto de um companheiro atento, surja também o homem primitivo que tenha um toque mais duro e dentro do que se procure, mas com a vantagem de não ser um animal que não saiba onde parar.

É tudo muito sutil e dual.  É um jogo de sedução e de idas e vindas. As regras são novas e não muito claras.  Os desejos são queridos mas não muito conhecidos.  Pode-se ao final regozijar-se ou chorar.

Além disso, como muito feminino, num dia uma fórmula mostra-se mágica e plena.  Noutro, ríspida e desmedida.  Essa dualidade soma-se ao fato de que ele também é dual e tais discrepâncias somam-se a todos os sentimentos acumulados do dia e essa fórmula muda não só no tempo, como no espaço e da vontade dos agentes.

É tão móvel que os únicos elementos fortes dessa equação é o desejo de desejar e ser desejado, de dar e receber prazer, mesmo que estes, no dia a dia, mudem tão repentinamente como o desenho das nuvens no céu.

Assim somos nós, e assim quem me procura, deve de antemão ter em mente a nossa dualidade e como o dia e a noite se complementam, nossas porções de individualidade assim o fazem, por vezes de forma abrupta e surpreende.

A beleza de tudo isto é estar vivendo e devemos aproveitar cada fase de nossa vida e de nossos desejos, não nos culpando, não nos recriminando, sabotando, criticando, limitando e trazendo falsos pudores cujo sentido e objetivo não são mais necessários e livrarmos nossa alma e nossos desejos em busca de um prazer realizável e realizado de forma que, após uma noite amor em lençóis de seda ou numa luta de gêneros numa caverna primitiva, voltemos nós mesmas para uma manhã radiante e realizadas, passamos a outros desafios igualmente duais e cheios de vicissitudes que são nosso trabalho, nossas famílias, nossos interesses e, enfim, nossa vida.