Três famílias brasileiras enfrentam jornadas, escalam, velejam e compartilham as bagagens conquistadas em anos de expedições.

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No verão de 2006, Amyr e Marina Klink embarcaram as filhas para a primeira viagem em família para a Antártida, a bordo do veleiro Paratii-2 (Foto: Marina Klink)

No topo das montanhas e na vastidão do oceano. Desbravadores modernos usam tecnologia de ponta, mas possuem o vínculo com o meio ambiente como as populações tradicionais. Rendem-se aos limites impostos pela natureza enquanto enfrentam os seus próprios e se motivam com a superação que instiga a humanidade desde as primeiras descobertas de terras desconhecidas.

São viajantes que se deslocam pelo mundo em família, ao mesmo tempo, que se conectam com seu mundo interior. “Escalar me faz ficar comigo mesma”, diz Adriana Gribel. Depois de uma viagem para Bali com o marido, Eduardo, começou a inserir este tipo de programa nos roteiros de férias da família. Isso há duas décadas. E nunca mais pararam.

Moradores de Belo Horizonte, capital mineira cercada pelas montanhas da Serra do Curral, o grupo realizou em 2003 a Expedição Sete Cumes na qual subiram as sete montanhas mais altas do Brasil e se tornaram a primeira família a ter esse feito no currículo.  Os Gribel são pais de quatro filhos e três deles, Renato, André e Mariana, escalam junto com o casal. Adriana acredita que a união familiar permite conquistas que não seriam possíveis se estivesse sozinha, mas conta que se preocupa com os riscos de estar ao lado dos filhos nas empreitadas. “Eu me atenho muito à segurança da minha família. Acho que ter o preparo e o equipamento certo, além da condição psicológica é fundamental para nosso bem-estar. Para mim, esse cuidado é um desafio”.

Subir montanhas é uma atividade que envolve perigos. A cada mil metros escalados perde-se 10% do oxigênio disponível ao nível do mar. Isto provoca o chamado “mal da montanha” , com consequências físicas que vão desde náuseas e diarreias à irritabilidade ou delírios.  “Enfrentamos expedições longas de até 16 dias. Tivemos diversos desafios físicos, como a falta de oxigênio por causa da altitude e o desgaste muscular. Mas o mais difícil é o aspecto psicológico de confiar em superar todas as dificuldades e manter a força de vontade de continuar”, relata André Gribel.

Porém, nem sempre é possível continuar. Na subida do Aconcágua, Adriana teve um forte mal estar que a impediu de seguir. “É um lugar muito seco e prosseguir poderia me fazer sofrer desidratação. Eu me preparei muito e fiquei bastante frustrada, mas precisei aceitar as condições que a natureza me impôs”.

Turbulências
Quem conhece muito bem a força dos limites naturais é Amyr Klink. Reconhecido por ter sido o primeiro velejador a cruzar o Atlântico sozinho em um barco a remo, tem muita história de resistência para contar. Anualmente, ele visita a Antártida. Em algumas dessas viagens vai acompanhado da família, em outras não e, em outras, conta com uma tripulação.

Em uma delas, atravessou condições que lhe renderam destaque na revista náutica internacional Yachting World. “Peguei o olho de uma tempestade com ondas de 30 metros de altura e por mais de 10 dias aquilo não parou. O jornalista contou a história direitinho, só esqueceu-se de dizer que atravessei tudo isso e não quebrei um único parafuso da embarcação. Completei uma volta ao mundo sem rasgar uma vela”. O mar exige respeito e habilidade do marinheiro, já é sabido. Os Schurmann também conhecem bem essa postura, adotada em suas jornadas ao redor da Terra.

“Vivemos momentos de tensão durante uma tempestade no Cabo Horn, com ventos de 67 nós. Em Puerto Deseado, com correntezas de até seis nós no canal, (um nó equivale a 1,85 km/h) a ancoragem se tornou complicadíssima. O vento girava o barco e a correnteza o levava para o outro lado. A corrente enrolou na quilha e arrastou a âncora. Foram várias noites sem dormir bem, com alarme no GPS acionado para nos alertar caso fossemos arrastados. Fomos arrastados quatro vezes e tivemos apenas alguns minutos para agir, caso contrário a correnteza levaria o barco contra o paredão de pedras” compartilha Wilhem Schurmann, o filho mais novo. “Além do risco de piratas, tsunamis e perda de tripulante no mar”, completa o pai, o capitão Vilfredo Schurmann.

E por falar em perda de tripulante, que nos remete à célebre frase: “homem ao mar”, Klink revela um dos aprendizados de quem é íntimo do mar. “Sabe em que situação mais acontece de um homem cair no mar?” Ele mesmo responde: “é quando o mar está sem ondas, liso; o sujeito se aproxima da beirada para fazer xixi, a embarcação dá uma balançada e como ele está distraído e não está se segurando com as duas mãos, cai; e o barco estando no piloto automático vai embora”.

Como se não bastassem as turbulências naturais, a tripulação enfrenta também as sacudidas comportamentais. É possível imaginá-las, se pensarmos um ambiente de tamanho reduzido, onde 8 ou 10 pessoas convivem diariamente, o tempo todo, sem ter onde se isolar. “Convivemos em um ambiente com menos de 180 metros quadrados”, destaca Vilfredo. “O maior desafio é o relacionamento no pequeno espaço. Convivência com oito pessoas de idades e personalidades diferentes é um exercício diário de adaptação e paciência”, completa Heloísa Schurmann, sua esposa.

A solução é o entendimento. “O bom é saber que podemos compartilhar alegrias, conhecimentos, medos e discutirmos isso com os tripulantes. Não é bom ter um tripulante mareado, pessimista, com pensamento negativo. Liderança é fundamental, mas com diálogo, saber escutar os colaboradores e realizar as mudanças necessárias”, explica o capitão. Amyr Klink afirma que uma das vantagens de viajar pelo mar é que a situação de não poder sair do barco acaba fazendo as pessoas se tornarem mais solidárias.

“Até quem não tem habilidade se sai bem, o que importa é ter vontade de se harmonizar com o grupo. Já levei tripulantes atrapalhados, aquele tipo de pessoa que derruba as coisas por onde passa, e ainda assim tudo saiu bem pela vontade e bom humor da pessoa, pelo empenho em colaborar, em fazer um ambiente bom”.

 

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Família Gribel em um terraço de Puyupatamarka, durante trilha Inca, no Peru (Foto: Hernan Loyasa/Arquivo Pessoal)

Por terra
Para Klink as dificuldades maiores estão em solo firme. Ele se mostra surpreso com a falta de incentivo aos esportes náuticos e à profissionalização de funções nesta área, em um país com mais de oito mil quilômetros de extensão litorânea contínua.

É uma atividade que pode render muito retorno financeiro para economia do país, que emprega profissionais altamente qualificados e que não seria difícil para formar. “Só na baía de Paraty seria possível fazer 60 bilhões de reais por ano apenas com o incentivo às atividades náuticas e a profissionalização vinculada a ela. Um exemplo é Palma de Mallorca, uma ilha espanhola na região de Ibiza, que possui 200 marinas e movimenta 15 bilhões de reais por ano”.

Para explicar a demanda por estes profissionais Klink faz uma comparação engraçada. “Um mecânico de barco na minha marina não consegue andar 30 metros no píer sem receber convites de trabalho. São mais assediados que a Gisele Bündchen na passarela”. A falta de publicações que cubram o setor é apontada por ele como consequência desse desinteresse.

Aparecer na mídia ajuda a trazer o assunto para pauta, disseminar esse estilo de vida mais perto da natureza e ampliar os horizontes do público para novas modalidades esportivas para além do já consagrado futebol.

Adriana fala que a exposição contribui. “Quanto mais conseguirmos incentivar outras pessoas a fazer atividades em família, estar com os filhos é bacana. Digo que meus foram criados por mim, pelo Eduardo e pela montanha. A mídia nos ajuda a divulgar essa mensagem, acho maravilhoso”.

Ela conta que em uma das subidas um alpinista de outro grupo escorregou e na descida deu uma “rasteira” sem querer em Renato. Ambos desceriam ladeira abaixo se não fosse a presença do guia que os ancorou e resgatou. “Foi no Aconcágua e meu filho esteve perto de rolar 2 mil metros. Precisamos sempre estar atentos para imprevistos. Este é um dos motivos que pelos quais me encanta ver, do ponto de vista da equipe, o quanto trabalhar juntos nos faz mais fortes que sozinhos, superamos obstáculos que pareciam intransponíveis”.

As lições oferecidas pela natureza não passam despercebidas dos Gribel. “Vejo quanto somos pequenos diante da natureza. É uma insignificância lúcida do que de fato representamos no mundo e isso aprendemos na prática.  Nas expedições, parece que a natureza nivela todos; ninguém é melhor que ninguém,  temos que usar talentos primários”.

Heloísa Schurmann concorda com a ajuda da imprensa fortalecer este modo de vida: “A exposição na mídia é bem-vinda, pois assim compartilhamos nossa experiência com outras pessoas”.

O legado nos bastidores
O intenso planejamento nem sempre aparece, mas é fundamental para o êxito das expedições. Cada um dos grupos tem alguém que assume essa tarefa com mais força, embora todos contêm com apoio dos demais membros.

Para os Schurmann, planejar está sob a responsabilidade do capitão Vilfredo. “Para a Expedição Oriente, nossa terceira grande viagem em volta do globo, foram cinco anos de planejamento, estruturando o plano, buscando investimentos e, após tudo isso, a construção do veleiro Kat”, comenta.  Na Família Gribel a incumbência dos planos pré-viagem estão nas mãos de Adriana.

Atuar nos bastidores também é a especialidade de Marina Bandeira Klink, esposa de Amyr. Porém, de uma maneira um pouco diferente. Há nove anos, partiu dela a ideia de propor ao marido colocar as três filhas a bordo, provocando surpresa no velejador. “A nossa caçula, Marininha, tinha cinco anos na época. Ela fez seis anos no Cabo Horn. Meu objetivo era fazer com que nossas filhas entendessem melhor o que o pai fazia, entender as ausências dele por seis meses porque era estranho despedir-se dele na beira do mar e só voltar a vê-lo novamente depois desse tempo todo. Por conta disso, às vezes ele não ia à festa dos pais na escola e eu queria que elas tivessem orgulho ao contar para os professores e amigos que o pai não tinha conseguido ir por estar na Antártida”.

A experiência deu tão certo que as meninas passaram a realizar as visitas ao continente gelado todo ano, a cada verão. Para que a jornada fosse ainda mais enriquecedora, sob o ponto de vista de aquisição de conhecimento, a mãe começou a agir como se estivessem em uma escola a céu aberto. Usando sua vocação para biologia, área que sempre a atraiu mas que acabou dando lugar à comunicação, ela começou a criar jogos, a incentivar as crianças a observar o meio ambiente, o comportamento dos animais para entender aquele universo que as cercava.

“A princípio minha intenção em fazer isso era para que elas não se entediassem na viagem. Sabe como é, três crianças dentro de um barco”, conta Marina. Com o passar do tempo e os compromissos na escola aumentando, houve um momento em que uma viagem coincidia com o período letivo e a escola não estava aceitando muito bem a ideia de afastá-las dos estudos. Então, ocorreu a ideia de propor que a viagem servisse como um estudo do meio, com a proposta de que elas levassem objetivos elaborados pelos professores para que fossem cumpridos ao longo do percurso e trouxessem estas tarefas concluídas ao retornarem.

“Quando voltamos, depois da quinta expedição, elas espontaneamente, decidiram fazer uma apresentação de tudo o que tinham aprendido e levaram para escola. A escola ficou tão entusiasmada que passou a pedir que elas fizessem palestras para os alunos”. Diante desse sucesso, Marina criou o projeto “Irmãs Klink”. De palestra em palestra atualmente as irmãs Klink, Marina Helena e as gêmeas Lara e Tamara, somam 140 apresentações e um livro que está em sua oitava edição e acaba de ser adotado pela rede municipal de ensino de São Paulo como leitura paradidática.

“Não gostaria que as viagens do Amyr terminassem em si mesmas e sim que gerassem frutos. Hoje, geram frutos através de nossos frutos, literalmente. As meninas são consideradas referência para garotos e garotas da idade delas. Eles as olham e percebem que não é preciso ser adulto para se interessar por estes temas, para escrever um livro. Quando chegamos a uma escola onde os alunos leram o livro delas, elas parecem pop stars. Estamos proporcionando a quem dificilmente teria condições de acessar este universo que o conheçam por meio da leitura. Isso me deixa muito orgulhosa”.

A conscientização também é considerada um legado para a família catarinense. Vilfredo Schurmann se preocupa em velejar em uma embarcação pensada para ter o mínimo impacto ambiental. O Veleiro Kat possui gerador eólico, painéis solares, sistema de tratamento de efluentes e composteira orgânica. Assim, não há necessidade de despejar resíduos na água.

Amyr segue a mesma postura: tudo no barco é projetado para consumir pouca água e energia. “A experiência no mar nos faz buscar eficiência e equilíbrio no uso dos recursos o tempo todo, é uma experiência muito saudável. Gastamos em média 12 litros de água por pessoa diariamente. Nossa descarga consome 450 ml de água, é eficiente e não produz mau cheiro. Eu quero cuidar do bem que é a água”.

O uso racional dos recursos parece ser uma filosofia comum aos velejadores, talvez explicado pela grande vínculo que criam com a natureza, fortalecendo a vontade de cuidar bem daquilo que admiram.

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As chegadas ao destino são momentos de muita comemoração, como essa ancoragem dos Schurmann na Polinésia (Foto: Família Schurmann/Pedro Nakano)

Inspirações que ficam na bagagem
Uma das maiores vantagens de ter a coragem de estar na natureza desta maneira especial é o acesso a lugares que de outra forma não seriam visitados; vivenciar o que acontece nestes lugares e conhecer povos e culturas distantes.

Essa bagagem inspira os viajantes.

“Nosso filhos admiram a diversidade, ao invés de estranhá-la. Nossa próxima aventura será em 2016. Subiremos o monte Elbrus, a maior montanha da Europa que fica na Cordilheira do Cáucaso, na divisa da Rússia com a Turquia”, adianta Adriana Gribel.

Da mesma forma, amigos conquistados e lugares difíceis de chegar, são fatores que contam muito para Amyr Klink. “Em todas as minhas viagens, a que mais me marcou foi a que fiz para uma ilha que fica na região da Islândia. É um arquipélago de 19 ilhas que pertence à Dinamarca, chamado Ilhas Faroe. Quando eu era pequeno, ouvia um tio jornalista falar sobre este lugar. Um dia, olhando na carta náutica, vi a ilha, decidi ir até lá e adorei. É um lugar maravilhoso, que possui pujança econômica e cultural, formado por pessoas descendentes dos vikings que falam a língua original nórdica. Isso me impressionou, além dos amigos que fiz. Outro dia recebi uma carta deles”, conta satisfeito.

Dias de bons ventos e de chegadas ao cume, outros de tempestades e de escorregões. Montanhistas e velejadores os enfrentam como uma metáfora da vida e compreendem que o que fica, de verdade, são a família, os amigos e tudo o que se aprende com as experiências.

Fonte: Horizonte Geografico