Ano passado tive o prazer de assistir a uma peça de teatro, aqui em Porto Alegre, chamada O Lugar Escuro baseada no livro de Heloisa Seixas, no qual tive a oportunidade de ler somente esse mês. Demorei um pouquinho para escrever até mesmo para acomodar os sentimentos que pude vivenciar tanto no espetáculo como agora na leitura dessa obra baseada em fatos reais de sua própria história.

A peça/livro discorre sobre o impacto do processo degenerativo da doença de Alzheimer e como as 3 gerações retratadas na peça lidam com os conflitos gerados e despertados por esse adoecimento, como diz a autora, uma “espiral assombrada” (sic).

A peça transcorre de uma forma muito real, com uma história com riqueza de detalhes. A emoção tomou conta em vários momentos, trazendo mais reflexões acerca dessa temática. Se o impacto de um diagnóstico já é difícil, conviver de fato vendo o processo degenerativo de um ente querido é “arrebatador” para não dizer até “assustador”. O paciente doente não tem contato real com as perdas de memória provocadas pelo Alzheimer, mas o familiar e ou cuidador sofre com essa convivência.

Não tem como passar ileso dessa situação; não tem como não pensar no seu próprio envelhecimento e com a possibilidade do aparecimento de alguma demência. É perfeitamente aceitável que ocorram esses pensamentos e questionamentos:

Será que vai acontecer comigo também?

Como vou envelhecer?

Será que vou passar por isso?

Será que vou ficar como a mamãe?

Como será meu envelhecimento?

Quem vai cuidar de mim?

Vou dar trabalho?…

… sendo que nesse processo podem até gerar pensamentos “destrutivos”. Por isso, digo da importância da família ter um suporte emocional para lidar não só com o adoecimento do ente querido, mas para dar conta de tantos sentimentos e questionamentos aflorados nesse processo da doença. Por fim, passando por estágios que vão desde a raiva, até a aceitação e compaixão, tão bem encenadas na peça. Pude, também, ver a transgeracionalidade na historia familiar retratada de maneira muito intensa na trama, o que me fez querer escrever essa minha percepção para vocês. Além disso, a mensagem que quero passar é da importância da estrutura emocional da família para dar conta de todo esse processo. Como psicóloga, que trabalho com essa temática, reforço a relevância do acompanhamento psicoterápico não somente nesses casos, mas principalmente nesses casos.

Doença de Alzheimer

“A doença de Alzheimer é a mais frequente doença neurodegenerativa na espécie humana. Trata-se de uma doença que acarreta alterações do funcionamento cognitivo (memória, linguagem, planejamento, habilidades visuais-espaciais) e muitas vezes também do comportamento (apatia, agitação, agressividade, delírios, entre outros), que limitam progressivamente a pessoa nas suas atividades da vida diária, sejam profissionais, sociais, de lazer ou mesmo domésticas e de autocuidado. O quadro clínico descrito caracteriza o que em Medicina é denominado “demência”. A doença de Alzheimer manifesta-se através de uma demência progressiva, isto é, que aumenta em sua gravidade com o tempo. Os sintomas iniciam lentamente e se intensificam ao longo dos meses e anos subsequentes. Muitos sintomas não ocorrem no início, mas surgem ao longo da evolução da doença”

Caso tenha alguma suspeita descrita acima, consulte seu médico.

Fonte: Academia Brasileira de neurologia

* Se você conhece alguém que poderia se beneficiar dessas informações repasse-as. A vida pode ser muito mais gratificante quando dividida com o seu semelhante.

Uma ótima semana a todos!

 

O LUGAR ESCURO: UMA HISTORIA DE SENILIDADE E LOUCURA

Autora: Heloísa Seixas
isbn: 9788573028720
idioma: Português
páginas: 136
ano de edição: 2007
edição: 1ª

 

 

Samantha Sittart
Psicóloga Clínica
CRP 07/23524