O prazer do ser humano justifica o sofrimento de um animal ?

Estresse de ser capturado e ter seu corpo manipulado, dor ao ser fisgado e mais dor ao ter o anzol removido, boca machucada, deformações na boca, perfurações na pele, infecções originadas onde houve a penetração do anzol, dificuldade em se alimentar? São “só” esses, ou será que ainda existem mais agravos que nem conseguimos imaginar!

Algumas pessoas que sofrem acidentes e que tem a mandíbula danificada, de modo geral, apresentam dificuldades na fala, na alimentação e em atividades sociais, além de muitas vezes sentirem dores. Será que com os peixes isso é diferente? Alguns diriam: Sim; eles não falam e também não sentem dor! Sim, peixes não falam, mas seguramente sentem dores e se alimentam como nós. Na realidade a sobrevivência de qualquer organismo está relacionada com a capacidade de perceber os estímulos externos e internos e responder a eles. O que possibilita essa troca de informações é uma estrutura “nervosa”, que pode ser desde células receptoras de estímulos dispersas pelo corpo até a organização de um sistema nervoso. Lembrando nossas aulas de biologia, a organização nervosa dos vertebrados é muito parecida entre os diferentes grupos.

A liberação do peixe, após fisgado, é considerada uma atitude nobre, de fundo conservacionista, o que leva muitas pessoas a defenderem o fechamento de algumas áreas para a pesca comercial, mantendo apenas a chamada pesca esportiva. Porém, muito ainda se deve conhecer com relação aos efeitos de tal prática, uma vez que estudos sobre a sobrevivência pós-soltura são incipientes e concentrados em ambiente continental, pouca informação disponível em ambiente marinho. Temos que ter o cuidado de não considerar o “pesque-e-solte” como medida ideal de gestão sob quaisquer condições.

Temos certeza que este texto será objeto de elogios, mas também de muitas críticas. Não temos intenção de propor legislação ou dificultar o exercício de tal atividade, mas somente colocarmos algumas questões, que acreditamos, para refletir. O que eles sentem durante tal procedimento? Como será que os peixes pescados e depois soltos se comportam após tal experiência? Essas questões são importantes por vários motivos, mas primeiramente vale destacar que peixes são vertebrados e como característica desse grupo, do qual fazemos parte, é a existência de um sistema nervoso central e organizado; com capacidade para receber, interpretar e responder a estímulos internos e externos, inclusive os dolorosos. Vertebrados podem suportar diferentes tipos de agressões e superarem os traumas (físicos, químicos ou psicológicos, estes no nosso caso? Será que somente no nosso caso?) por elas causados; aliás como a grande maioria das espécies vivas.

Peixes machucados, com a boca traumatizada, ou às vezes, totalmente dilacerada, ainda procurando alimento, seguramente não é uma cena das mais agradáveis. Muitos não conseguirão conseguir comida e morrerão de fome. Outros até conseguirão comida, mas às custas de muito gasto energético, e levarão mais tempo para morrer de inanição! Alguns, quem sabe como muito otimismo vários, sofrerão as consequências de tais agressões e acabarão por superá-las, dando continuidade à espécie. Quem sabe esses sobreviventes não caiam em outras armadilhas semelhantes, mas se elas foram modificadas, mesmos estes correrão o risco de serem novamente apanhados e não sobreviverem.

Além do “sentimento” e possibilidade de sobrevivência do peixe “pescado esportivamente”, é importante destacar que a estabilidade dinâmica das condições físicas, químicas e biológicas ecossistêmicas é essencial para garantia da viabilidade e produção de alimentos para manutenção dos ecossistemas. Lembrando que a espécie humana depende, como as demais espécies, dessas condições. Salientando que nossa espécie, em pleno século XXI, já deveríamos ter plena consciência da importância de todas as espécies para a manutenção dos serviços de ecossistema capazes de garantir nossa própria sobrevivência.
Sugerimos o texto Pesque e solte: informações gerais e procedimentos práticos, do Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis – IBAMA, disponível em http://www.ibama.gov.br/sophia/cnia/livros/pesqueesolte.pdf.